1.o Colocado "LONGEVIDADE HISTÓRIAS DE VIDA BRADESCO SEGUROS" 2012

Carta do Papa João Paulo II aos anciãos - 1999

28 de outubro de 2010 comente


Aos meus irmãos e irmãs anciãos!
 



« A soma da nossa vida é de setenta anos, 
os mais fortes chegam aos oitenta; 
mas a maior parte deles 
é fadiga e dor, 
passam depressa e nós desaparecemos » 
(Sal 90 [89], 10)

1. Setenta anos eram muitos no tempo em que o Salmista escrevia estas palavras, e
muitos não os superavam; hoje, graças aos progressos da medicina e melhores
condições sociais e econômicas, em muitas regiões do mundo a vida ampliou-se
notavelmente. Porém, é sempre verdade que os anos passam rapidamente; o dom
da vida, apesar da fadiga e dor que a caracteriza, é belo e precioso demais para que
dele nos cansemos.

Sendo também eu idoso, senti o desejo de estabelecer um diálogo convosco. Faço-
o, antes de mais, dando graças a Deus pelos abundantes dons e oportunidades que
Ele me concedeu até hoje. Percorro novamente com a memória as etapas da minha
existência, que se entrelaçam com a história de grande parte deste século, e vejo
aparecer a figura de numerosas pessoas, algumas delas particularmente queridas:
são lembranças de eventos ordinários e extraordinários, de momentos felizes e de
fatos marcados pelo sofrimento. Acima de tudo, no entanto, vejo estender-se a mão
providente e misericordiosa de Deus Pai, o qual « trata do melhor modo tudo o que
existe »,(1) e « se algo Lhe pedimos, segundo a Sua vontade, Ele ouve-nos » (1 Jo
5, 14). A Ele, digo com o Salmista: « Desde a minha juventude, Vós me instruístes,
Senhor, até ao presente anuncio as Vossas maravilhas. Agora na velhice e na
decrepitude, não me abandoneis, ó Deus; para que narre às gerações a força do
Vosso braço, o Vosso poder a todos os que hão de vir » (Sal 71 [70], 17-18).

Meu pensamento dirige-se com afeto a vós, caríssimos anciãos de qualquer língua
e cultura. Escrevo-vos esta carta no ano que a Organização das Nações Unidas quis
oportunamente dedicar aos anciãos, para chamar a atenção da sociedade inteira

 para a situação daquele que, pelo peso da idade, deve com freqüência enfrentar
problemas numerosos e difíceis.

Sobre este tema, o Pontifício Conselho para os Leigos já ofereceu preciosas linhas
de reflexão. (2) Com esta carta, desejo somente exprimir a minha proximidade
espiritual com o intuito de quem, ano após ano, sente crescer dentro de si uma
compreensão sempre mais profunda desta fase da vida e nota consequentemente a
necessidade de um contacto mais direto com os seus contemporâneos para refletir
sobre coisas que são de comum experiência, tudo colocando sob o olhar de Deus
que nos envolve com o seu amor, e com a sua providência nos sustenta e conduz.

2. Caríssimos irmãos e irmãs, voltar ao passado para tentar uma espécie de
balanço, é espontâneo na nossa idade. Esta visão retrospectiva permite uma
avaliação mais serena e objetiva de pessoas e situações encontradas ao longo do
caminho. O passar do tempo suaviza os contornos dos acontecimentos,
amenizando os contratempos dolorosos. Infelizmente cruzes e tribulações estão
amplamente presentes na vida de cada um. Às vezes trata-se de problemas e
sofrimentos, que põem à dura prova a resistência psicofísica e podem fazer
estremecer a própria fé. Mas a experiência ensina que até as próprias penas
cotidianas, com a graça do Senhor, contribuem freqüentemente para o
amadurecimento das pessoas, abrandando-lhes o caráter.

Para além dos acontecimentos pessoais, a reflexão que mais se impõe é a que se
refere ao tempo que passa inexoravelmente. « O tempo foge irremediavelmente »,
já sentenciava um antigo poeta latino. (3) O homem está imerso no tempo: nele
nasce, vive e morre. Com o nascimento fixa-se uma data, a primeira da sua vida, e
com a morte a outra, a última: o alfa e o ômega, o início e o fim da sua passagem
pela terra, como a tradição cristã sublinha, esculpindo estas letras do alfabeto grego
sobre as lápides dos túmulos.

Mas, se a existência de cada um de nós é tão limitada e frágil, conforta-nos o
pensamento que, graças à alma espiritual, sobrevivemos à morte. Aliás, a fé
oferece-nos uma « esperança que não confunde » (cf. Rom 5, 5), descerrando-nos a
perspectiva da ressurreição final. Não é sem motivo que a Igreja, na solene Vigília
Pascal, usa estas mesmas letras para se referir a Cristo vivo, ontem, hoje e sempre:
« Princípio e fim, Alfa e Ômega. A Ele pertence o tempo e a eternidade ». (4) A
existência humana, apesar de sujeita ao tempo, é colocada por Cristo no horizonte
da imortalidade. Ele « fez-Se homem entre os homens, para reunir o fim com o
princípio, isto é, o homem com Deus ». (5)



Um século complexo rumo a um futuro de esperança

3. Dirigindo-me aos anciãos, sei que estou falando com pessoas e de pessoas que
atravessaram um longo percurso (cf. Sab 4, 13). Falo aos meus contemporâneos;
posso, assim, procurar facilmente uma analogia na minha vida pessoal. A nossa
vida, caros irmãos e irmãs, foi inscrita pela Providência neste século vinte, que
recebeu uma complexa herança do passado e foi testemunha de eventos numerosos
e extraordinários.

Como muitos outros tempos da história, ele registou luzes e sombras. Nem tudo foi
escuridão. Muitos aspectos positivos compensaram o negativo ou dele surgiram
como uma benéfica reação da consciência coletiva. Mas também é verdade — e
seria tão injusto como perigoso esquecê-lo — que houve sofrimentos indizíveis,
que afetaram a vida de milhões e milhões de pessoas. Bastaria pensar nos conflitos
deflagrados em diversos continentes devido a disputas territoriais entre Estados ou
ao ódio inter-étnico. De não menor gravidade devem-se considerar a extrema
pobreza de amplas faixas sociais no hemisfério sul do mundo, o fenômeno
vergonhoso da discriminação racial e a sistemática violação dos direitos humanos
em muitas nações. E que dizer então dos grandes conflitos mundiais?

Na primeira parte do século houve duas guerras, com uma quantidade nunca antes
imaginada de mortos e de destruição. A primeira guerra mundial ceifou milhões de
soldados e de civis, destroçando tantas vidas humanas no limiar da adolescência, e
até mesmo da infância. E que dizer então da segunda guerra mundial? Ocorrida
após poucos decênios de relativa paz mundial, especialmente na Europa, foi mais
trágica do que a precedente, com conseqüências desastrosas para a vida das nações
e dos continentes. Foi guerra total, inaudita mobilização de ódio, que caiu também
brutalmente sobre populações civis inermes e destruiu inteiras gerações. O tributo
pago, nas várias frentes, à loucura bélica foi incalculável, e igualmente terrível foi
a matança consumada nos campos de extermínio, verdadeiros Gólgotas da época
contemporânea.

Na segunda metade do século, viveu-se por vários anos, o pesadelo da guerra fria,
isto é da confrontação entre os dois grandes blocos ideológicos opostos, Leste e
Oeste, com uma desenfreada corrida aos armamentos e a constante ameaça de uma
guerra atômica, capaz de levar a humanidade à extinção.(6) Graças a Deus, aquela
página tenebrosa fechou-se na Europa com a queda dos regimes totalitários
opressivos, como fruto de uma luta pacífica, que se serviu das armas da verdade e
da justiça.(7) Começou, assim, um árduo mas profícuo processo de diálogo e de
reconciliação, destinado a instaurar uma convivência mais serena e solidária entre


os povos.

Muitas nações, porém, estão ainda bem longe de conhecer os benefícios da paz e
da liberdade. Grande inquietação suscitou nos passados meses o violento conflito
deflagrado na região dos Balcãs, já teatro nos anos precedentes de uma terrível
guerra de caráter étnico: mais sangue foi derramado, outras destruições
aconteceram, mais ódio foi alimentado. Agora, no momento em que o furor das
armas se aplacou, começa-se a pensar na reconstrução, na perspectiva do novo
milênio. Nesse meio tempo, continuam a rebentar também em outros continentes
vários focos de guerra, por vezes com massacres e violências muito cedo
esquecidos pelos jornais.

4. Se estas lembranças e dolorosas realidades atuais nos entristecem, não podemos
esquecer que o nosso século viu levantarem-se no horizonte bastantes sinais
positivos, que constituem novas fontes de esperança para o terceiro milênio.
Assim, cresceu — mesmo entre tantas contradições, especialmente quanto ao
respeito pela vida de cada ser humano — a consciência dos direitos humanos
universais, proclamados em solenes declarações que comprometem os povos.

Desenvolveu-se, igualmente, o sentido do direito dos povos à autodeterminação no
âmbito de relações nacionais e internacionais inspiradas na valorização das
identidades culturais e no respeito pelas minorias. A queda dos sistemas
totalitários, como os do Leste europeu, fez crescer a percepção universal do valor
da democracia e da liberdade de mercado, mesmo deixando aberto o enorme
desafio de conjugar liberdade e justiça social.

Deve ser considerado, da mesma forma, um grande dom de Deus o fato de as
religiões estarem tentando, sempre com maior determinação, um diálogo que as
torne elemento fundamental de paz e de unidade no mundo.

Como não ressaltar também o crescimento, na consciência comum, do
reconhecimento da dignidade da mulher? Sem dúvida, há ainda muito caminho a
ser percorrido, mas a linha está traçada. Motivo de esperança é, também, a
intensificação das comunicações que, favorecidas pela tecnologia atual, permitem
superar as fronteiras tradicionais, fazendo-nos sentir cidadãos do mundo.

Outro campo importante de maturação é a nova sensibilidade ecológica que merece
ser encorajada. Fatores de esperança são ainda os grandes progressos da medicina e
das ciências aplicadas ao bem-estar do homem.





Portanto, são muitos os motivos pelos quais devemos agradecer a Deus. Apesar de
tudo, este final de século apresenta-se com grandes potencialidades de paz e de
progresso. Mesmo das provas que afetaram a nossa geração, emerge uma luz capaz
de iluminar os anos da nossa velhice. Fica então confirmado um princípio muito
apreciado pela fé cristã: « As tribulações não só não destroem a esperança, mas são
o seu fundamento ».(8)

Então é sugestivo que, enquanto o século e o milênio se encaminham para o
crepúsculo e já se entrevê a aurora de uma nova estação para a humanidade, nos
detenhamos a meditar sobre a realidade do tempo que passa rápido, não para
resignar-nos a um destino inexorável, mas para valorizar plenamente os anos que
nos restam para viver.

O outono da vida

5. O que é a velhice? Às vezes fala-se dela como do outono da vida — assim fazia
Cícero (9) — seguindo a analogia sugerida pelas estações e pelo andamento das
fases da natureza. Basta olhar, ao longo do ano, para a mudança da paisagem nas
montanhas e nas planícies, nos prados, nos vales, nos bosques, nas árvores e nas
plantas. Há uma estreita semelhança entre o biorritmo do homem e os ciclos da
natureza, à qual ele pertence.

Porém, o homem, por sua vez, distingue-se de toda a realidade que o circunda,
porque é pessoa. Plasmado à imagem e semelhança de Deus, ele é sujeito
consciente e responsável. Mas, mesmo na sua dimensão espiritual, ele vive a
sucessão das distintas fases, todas igualmente passageiras. S. Efrem, o Sírio, amava
comparar a vida com os dedos da mão, quer para pôr em evidência que a sua
duração não vai mais além de um palmo, quer para indicar que, como os vários
dedos, cada fase da vida tem a sua característica, e « os dedos representam os cinco
degraus pelos quais o homem progride ».(10) Se, portanto, a infância e a juventude
são o período no qual o ser humano está formando-se, vive projetado para o futuro
e, tomando consciência das próprias potencialidades, forja projetos para a idade
adulta, a velhice também possui os seus bens, porque — como observa S. Jerônimo
— atenuando o ímpeto das paixões, ela « aumenta a sabedoria, dá conselhos mais
amadurecidos ».(11) Em certo sentido, é a época privilegiada daquela sabedoria
que, em geral, é fruto da experiência, porque « o tempo é um grande mestre ».(12)
Além disso, é bem conhecida a oração do Salmista: « Ensinai-nos a contar os
nossos dias, para que guiemos o coração na sabedoria » (Sal 90 [89], 12).

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