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Afinal para que tanto medo? - “Ponto G” por Maitê Proença

11 de setembro de 2013 comente

Maitê Proença: mais um texto pra refletir, aqui na RG

Clarice Niskier é minha colega querida, já atuamos juntas no palco e atualmente ela co-dirige comigo o espetáculo À beira do Abismo Me Cresceram Asas, em cartaz em São Paulo. Temos também o projeto de uma peça sobre mulheres de cinquenta ( já fizemos juntas Mulheres de 30). Pra esta peça, que vai sendo elaborada, muito lentamente, nas brechas de nossa falta de tempo, Clarice escreveu um texto que saiu recentemente publicado em meu último livro…Estamos envelhecendo, estamos envelhecendo, estamos envelhecendo, só ouço isto. No táxi, no trânsito, no banco, só me chamam de senhora. E as amigas falam “estamos envelhecendo”, como quem diz “estamos apodrecendo”. Não estou achando envelhecer esse horror todo. Até agora. Mas a pressão é grande. Então, outro dia, divertidamente, fiz uma analogia.

O queijo Gorgonzola é um queijo que a maioria das pessoas que eu conheço gosta. Gosta na salada, no pão, com vinho tinto, vinho branco, é um queijo delicioso, de sabor e aroma peculiares, uma invenção italiana, tem status de iguaria com seu sabor sofisticadíssimo, incomparável, vende aos quilos nos supermercados do Leblon, é caro e é podre. É um queijo contaminado por fungos, só fica bom depois que mofa. É um queijo podre de chique.

Para ficar gostoso tem que estar no ponto certo da deterioração da matéria. O que me possibilita afirmar que não é pelo fato de estar envelhecendo ou apodrecendo ou mofando que devo ser desvalorizada.
Saibam: vou envelhecer até o ponto certo, como o Gorgonzola. Se Deus quiser, morrerei no ponto G da deterioração da matéria. Estou me tornando uma iguaria. Com vinho tinto sou deliciosa. Aos 50 sou uma mulher para paladares sofisticados. Não sou mais um queijo Minas Frescal, não sou mais uma Ricota, não sou um queijo amarelo qualquer para um lanche sem compromisso. Não sou para qualquer um, nem para qualquer um dou bola, agora tenho status, sou um queijo Gorgonzola.

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O fantasma da memória - Dante Mendonça

1 de setembro de 2013 comente
O fantasma da memória
Na semana passada fiquei cinco dias longe do computador. Há quem diga que alguns dias de férias servem para recarregar as baterias. Ao contrário, depois de um tempo parados ficamos é com a bateria descarregada. Para voltar a funcionar, só mesmo no tranco.
Músicos e desenhistas sabem: uma semana de folga na praia é suficiente para enferrujar os dedos. Para os datilógrafos o efeito é o mesmo, com um agravante para os que ainda precisam catar e juntar palavras: a fiação da memória volta comprometida com o ócio.

Quando meninos, a mãe nos dizia que o agrião era um inigualável fortificante para a memória. A salada nunca me convenceu, conforme atestavam minhas notas de matemática. Agora com a larga soma dos anos, a qualquer lapso de memória me curvo com a culpa de ter comido muito pouco agrião.
Mas do que era mesmo que estava falando? Ah, sim: da volta ao batente. Nesses retornos preguiçosos, quando a vida real se apresenta ainda desfocada, o que nos salva é algum livro posto à parte para essas emergências. “Meu último suspiro”, a autobiografia de Luiz Buñuel, por exemplo. A propósito desses pequenos lapsos de memória, o cineasta espanhol abre suas memórias de vida confessando que lhe chega a angustiar quando não consegue lembrar-se de pequenas coisas. À medida que os anos passam, a memória antes desdenhada torna-se preciosa: “Chegamos às vezes a mergulhar numa espécie de raiva ao procurar em vão por uma palavra que conhecemos, que está na ponta da língua e se recusa obstinadamente a vir à tona”.
Buñuel, que na velhice ficou surdo e com a visão tão deficiente que não conseguia mais assistir a seus próprios filmes, nos convence de que podemos até perder outros sentidos, menos a memória: “Uma vida sem memória não seria vida, assim como a inteligência sem possibilidade de expressão não seria inteligência. Nossa memória é nossa coerência, nossa razão, nossa ação, nosso sentimento. Sem ela não somos nada”.
A sensação atroz da perda de memória remete Luis Buñuel (1900/1983) aos últimos anos de vida de sua mãe: “Quando
ia visitá-la, em Zaragoza, onde morava com meus irmãos, às vezes lhe dávamos uma revista, que folheava minuciosamente da primeira à última página. Em seguida, pegávamos de volta a revista de suas mãos para oferecer outra, que na realidade era a mesma. Ela voltava a folhear com o mesmo interesse”.

Apesar de comer bastante agrião, os últimos anos de minha mãe foram semelhantes. Ela nos recebia com a festa de sempre, providenciava acomodações, conferia se tinha cobertas suficientes, fazia o cardápio para os dias seguintes, mas logo em seguida perguntava os nomes daqueles que haviam chegado, como se os estivesse vendo pela primeira vez. Graças a Deus, ainda me lembro do que minha mãe sempre dizia: “Quando não tiver nenhum livro pra ler, pelo menos faça palavras cruzadas”.

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O nome das coisas - Mário Prata

1 de julho de 2012 comente

Outro dia fui comprar um abajur. A mocinha me olhou e perguntou:
- Luminária?
Eu olhei em volta, tinha uma porção de abajur.
- Não, abajur mesmo, eu disse.
- De teto?
Fiquei olhando meio pasmo para a vendedora, para o teto, para a rua.
Ou eu estava muito velho ou ela estava muito nova.
-No meu tempo - e isso faz pouco tempo - o abajur a gente punha no criado-mudo, na mesinha da sala. E lá em cima era lustre.
- Lustre?
Descobri que agora é tudo luminária. Passou por spot, virou luminária. Pra mim isso é pior que bandeirinha virar auxiliar de arbitragem, e passe (no futebol) chamar-se agora "assistência".
Quem são os idiotas que ficam o dia inteiro pensando nessas coisas? Mudar o nome das coisas? Por que eles não mudam o próprio nome?
A mocinha-da-luminária, por exemplo, se chamava Mariclaire. Desconfio até que já tivesse mudado de nome.Pra que mudar o nome das coisas?
Eu moro numa rua que se chama Rodovia Tertuliano de Brito Xavier. Sabe como se chamava antes? Caminho do Rei. Pode? Pode! Coisa de vereador com minhoca na cabeça e tio para homenagear.
Mas lustres e abajur, gente, é demais. Programação de televisão virou "grade". Deve ser para prender o espectador mais desavisado.
Entrega em domicílio virou "delivery". Agenda de correio, "mailing". São os publicitários, os agentes de 'marquetingui'?
Quer coisa mais bonita do que criado-mudo? Existe nome melhor para aquilo? Pois agora as lojas vendem "mesa-de-apoio". considerando-se a estratégica posição ao lado da cama, posso até imaginar para que tipo de apoio serve.
Antigamente virava-se santo, agora vira-se "beato", como se já não bastassem todas as carolas beatas que temos por aí.
Mudar o nome de deputado para "putado" ninguém tem coragem, né? Nem de senador para "sonhador"."Sonhadores da República", não soa bem? E uma "bancada de putados?"
A turma dos dez por cento agora se chama "lobista!" e a palavra não vem de lobo, mas parece.
E por que é que agora as aeromoças não querem mais ser chamadas assim? Agora são "comissárias". Não entendo: a palavra comissária vem de comissão, não é? Aeromoça é tão bom e terno como criado-mudo. Pior se as aeromoças virassem "moças-de-apoio", taí uma idéia...
E tem umas palavras que surgem de repente do nada.
"Luau" - Isso é novo!
Quando eu era jovem, se alguém falasse essa palavra ou fosse participar de um luau, era olhado meio de lado. Era pior que tomar vinho rosê. Coisa de bicha, isso de luau.
Mas a vantagem de ser um pouco mais velho é saber que o computador que hoje todo mundo tem em casa e que na intimidade é chamado de micro, nasceu com o nome de "cérebro-eletrônico". Sabia dessa?
E sabia que o primeiro computador, perdão cérebro-eletrônico, pesava 14 toneladas? E que, nainauguração do primeiro, os gênios da época diziam que, até o final do século, se poderia fazer computadores de apenas uma tonelada?
Outra palavrinha nova é "stress". Pode ter certeza, minha jovem, que, antes de inventarem a palavra, quase ninguém tinha stress. Mais ou menos como a "TPM". Se a palavra está aí a gente tem de sofrer com ela, não é mesmo? No meu tempo o máximo que a gente ficava era de "saco cheio". Estressado, só na turma do Luau.
E agora me diga: por que é que em algumas casas existe "jardim de inverno" e não "jardim de verão?"
E se você quiser mudar o nome desta crônica para lingüiça, pode. Desde que coloque o devido trema*. Também conhecido como dois pinguinhos.

*A crônica foi escrita, antes da atual reforma ortográfica.


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Desabafo sobre a "onda verde"

28 de abril de 2012 2 comentários
Na fila do supermercado, o caixa diz a uma senhora idosa: 

- A senhora deveria trazer suas próprias sacolas para as compras, uma vez que sacos de plástico não são amigáveis ao meio ambiente. 

A senhora pediu desculpas e disse: 

- Não havia essa onda verde no meu tempo. 

O empregado respondeu: 

- Esse é exatamente o nosso problema hoje, minha senhora. Sua geração não se preocupou o suficiente com nosso meio ambiente. 

- Você está certo - responde a velha senhora - nossa geração não se preocupou adequadamente com o meio ambiente. Naquela época, as garrafas de leite, garrafas de refrigerante e cerveja eram devolvidos à loja. A loja mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de cada reuso, e eles, os fabricantes de bebidas, usavam as garrafas, umas tantas outras vezes. 

Realmente não nos preocupamos com o meio ambiente no nosso tempo. Subíamos as escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios. Caminhamos até o comércio, ao invés de usar o nosso carro de 300 cavalos de potência a cada vez que precisamos ir a dois quarteirões. 

Mas você está certo. Nós não nos preocupávamos com o meio ambiente. Até então, as fraldas de bebês eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis. Roupas secas: a secagem era feita por nós mesmos, não nestas máquinas bamboleantes de 220 volts. A energia solar e eólica é que realmente secavam nossas roupas. Os meninos pequenos usavam as roupas que tinham sido de seus irmãos mais velhos, e não roupas sempre novas. 

Mas é verdade: não havia preocupação com o meio ambiente, naqueles dias. Naquela época tínhamos somente uma TV ou rádio em casa, e não uma TV em cada quarto. E a TV tinha uma tela do tamanho de um lenço, não um telão do tamanho de um estádio; que depois será descartado como? 

Na cozinha, tínhamos que bater tudo com as mãos porque não havia máquinas elétricas, que fazem tudo por nós. Quando embalávamos algo um pouco frágil para o correio, usamos jornal amassado para protegê-lo, não plastico bolha ou pellets de plástico que duram cinco séculos para começar a degradar. Naqueles tempos não se usava um motor a gasolina apenas para cortar a grama, era utilizado um cortador de grama que exigia músculos. O exercício era extraordinário, e não precisava ir a uma academia e usar esteiras que também funcionam a eletricidade. 

Mas você tem razão: não havia naquela época preocupação com o meio ambiente. Bebíamos diretamente da fonte, quando estávamos com sede, em vez de usar copos plásticos e garrafas pet que agora lotam os oceanos. Canetas: recarregávamos com tinta umas tantas vezes ao invés de comprar uma outra. Abandonamos as navalhas, ao invés de jogar fora todos os aparelhos 'descartáveis' e poluentes só porque a lâmina ficou sem corte. 

Na verdade, tivemos uma onda verde naquela época. Naqueles dias, as pessoas tomavam o bonde ou ônibus e os meninos iam em suas bicicletas ou a pé para a escola, ao invés de usar a mãe como um serviço de táxi 24 horas. Tínhamos só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos. E nós não precisávamos de um GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizzaria mais próxima. 

Então, não é risível que a atual geração fale tanto em meio ambiente, mas não quer abrir mão de nada e não pensa em viver um pouco como na minha época?

(A equipe do Blog, é favorável a preservação do meio ambiente)

Desconheço a autoria, se alguém souber, por favor comunique para que eu possa dar os créditos devidos

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"Prestenção, minha gente"

19 de março de 2011 3 comentários

Na fila que me parecia quase um século, minha atenção foi subitamente arrebatada por aquela figura entrando pela porta estreita da única casa lotérica da praia.

A prata dos cabelos presos num coque à moda antiga, o indefectível casaquinho usado por todas as avós do mundo, o par de óculos colado à ponta de seu nariz como parte de seu corpo... Nada, nada mesmo combinava com seus olhos. De um azul raro e imenso, quase celeste, era como um convite irrecusável à eternidade, tão jovens aparentava.

Com uma bengala que se não era de prata pura, parecia, ela deu alguns passos, meio trôpega e postou-se na fila do caixa onde havia um cartaz bastante visível e claro que dizia: “Idosos, deficientes e pessoas com crianças de colo”. Leu-o, como fazia todos os meses em que ali vinha receber a pensão de seu coronel, um amor que nem a morte separou. Mal tirou os olhos do cartaz, virou-se e deu de cara com uma moça com uma criança no colo.

Alta, de longos e bem tratados cabelos loiros, corpo bem feito à mostra num vestido curtíssimo, bem próprio para praia, a moça certamente estaria habituada a chamar atenção por onde passasse. Mas ela nunca imaginou que naquele dia, as atenções seriam redobradas. E ainda por um mal feito.
A senhorinha passou a olhar a moça acintosamente, de cima a baixo, como se varresse com o olhar algo desagradável. De repente, ela cruzou os braços à frente do peito como que para tomar coragem, levantou a cabeça para alcançar o olhar dela, tão falsamente distraído e disse:

– Ôôôô... mocinha! Acho que você cometeu um engano. O atendimento diferenciado inclui ‘pessoas com criança DE colo’ e não ‘pessoas com crianças NO colo”. – explicou, enfatizando o ‘no’.

Para nós, a população lotérica, que já tínhamos lido todos os cartazes da saleta e conversado com todos os conhecidos, aquilo naturalmente, foi um prato cheio para aliviar o tédio.

Não era implicância de gente velha, não. A criança era um baita de um guri, um galalau, passava de três anos e fazia força o tempo todo para livrar-se daquele colo inexplicável.
A moça até que tentou por alguns minutos ignorar o comentário, mas a senhora estava determinada a fazer justiça naquele momento:

– E então? – disse, espalmando as duas mãos e erguendo o queixo num gesto de evidente cobrança de atitude.
Não tendo mais como se livrar da velhinha e dos olhares cúmplices que a cercavam por todos os lados, ela explicou:

– Eu sempre pego fila, mas hoje estou precisando...

– Pois muito bem, minha filha. Parabéns pela sua educação! – e voltou-se para o caixa que a sua vez já chegara.

Devia ter cerca de vinte pessoas irritadas pela espera no recinto, todas loucas por uma boa desculpa para desabafar. Todas mantiveram o olhar firme na moça sem educação. Eu, protegida atrás de uns óculos escuros enormes, assistia tudo, morta de vergonha por ela. Pensei no quanto é humilhante receber uma lição daquelas, já sendo adulta, em público, por gente desconhecida.

O mal-estar durou uns minutos. Logo, não resistindo mais a pressão invisível e muda do povo, a moça desistiu e saiu da sala, com aquela criança enorme ao lado e as contas por pagar.

Quanto à senhora boca-dura, ficou o exemplo de civilidade a todos nós, que preferimos fazer vista grossa para não nos incomodarmos com situações como aquela, num país onde todos fazem o que querem e ninguém reclama.

Tive vontade de por a senhorinha debaixo do braço e levá-la até Brasília para resolver a questão da mega usina de Belo Monte que ameaça destruir boa parte da Amazônia desafiando a legislação ambiental, pondo diretor de Ibama para correr e coisa e tal.

Mas poderíamos começar por aqui, no centro de São Francisco do Sul. Ah! Esta velhinha na Prefeitura... Aposto que impediria a Norsul de entrar na ilha para fazer os estragos que promete, a despeito dos pareceres contra de biólogos e a desaprovação pública da população.A senhorinha, ao terminar sua tarefa no caixa, caminhou até a porta, e, como se estivesse se esquecendo de algo, virou-se e disse, para quem quisesse ouvir:
– Preste atenção, minha gente. Não deixe que te façam de bobo.

Autor: Fernanda de Aquino
Fonte: Correio do Litoral.Com 

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Caminhando nas nuvens.

15 de dezembro de 2009 10 comentários



Na certa posso apostar que vocês nunca fizeram isto, ou se fizeram, não têm coragem de confessar! Mas que foi bom foi! Não foi?

Por outro lado, muitos devem estar dizendo agora que essa história de caminhar nas nuvens só serve para namorados apaixonados, ou aqueles que não conseguem mesmo por os pés na terra firme.
Mas eu posso garantir para vocês, que caminhar nas nuvens, viajar por entre elas, e nelas descortinar as mais incríveis imagens e sonhos, é algo sensacional. Isto pode acontecer na hora em que a gente resolver dar uma descansada de um passeio no parque, deitado de papo pro ar, sem nada a pensar. Mas infalivelmente vamos nos pegar olhando as nuvens, buscando formas diferentes ou nelas procurando reconhecer imagens de animais, barcos, peixes, carros, e até os longos cabelos de uma linda mulher. Por falar nas mulheres, elas são capazes das nuvens tirarem as paredes de sua casa, as flores de seu jardim e os lábios do homem amado.
Poxa! Quanto romantismo hein?
E então, já no por do sol destes dias de verão, resolvemos dar uma caminhada por entre as nuvens que há muito tempo tínhamos vontade de dar.

Há quanto tempo não se sentia mais essa sensação de liberdade! Deixando a imaginação nos levar soltos, nos sentimos tocando com força o espaço antes só do soprar do vento. Mais alguns passos, e lá estávamos nós, sentados à beira de uma nuvem, quais crianças deixando as pernas balancearem a margem de um regato.

Nada de nos sentirmos donos do mundo, da verdade, da tristeza e da alegria! Nada disso! Mas só donos desse momento em quase podemos acariciar a Lua, provocando ciúmes no Sol que já foi se recolher, e dar um peteleco em uma das pontas da Estrela D’Alva só para ouvir se o seu tinido é mesmo de puro cristal, como dizem os poetas.

E até já cantamos aqueles marchinhas carnavalescas de antigamente, o que lembramos é claro. Uma diz que a Estrela D’Alva, no céu desponta com suave esplendor... larari laralááá´... E depois aquela Lua bonita se você não fosse casada, faria uma escada prá ir no céu te beijar!

Êpaaa! Esta nuvem está se afastando demais de casa! Hora de pular prá outra, senão depois não conseguiremos voltar! Sabem como é, né? Oooooppp! Deu!

Não dizem que de músico, poeta e louco, todos nós temos um pouco? Pois é! Hoje foi nosso dia! E os seus como serão ? Coragem gente! Não dói nada! E como é bom! Como é!
E tudo isso é maravilhoso, mesmo que esse passeio seja feito simplesmente da moldura da sua janela.
Um abraço e até .....!

Texto: A.J.Maier
Imagem: silvia masc

Cinquentona - ® Manoel Carlos

2 de junho de 2009 3 comentários



Minha amiga Sylvia fez 50 anos e deu uma linda festa para os amigos.
Brigadeiros, casadinhos, olhos-de-sogra, além de salgados e bebidas à vontade. E no centro da mesa, iluminado por cinqüenta velinhas, um colossal e saboroso bolo de aniversário. Ah, e também, claro, com direito a um coro de muitas vozes cantando "Parabéns pra Você".
- Que coragem - brincou o Zé Mário, nosso velho companheiro das noitadas de pôquer.
Sylvia rebateu em cima:

- Por quê? Acha que ainda escondo a minha idade? Já superei isso, meu caro.

- No seu caso não é esconder - continuou Zé Mário.

- Pra que declarar, se você aparenta menos?

- Mas é justamente por isso que sinto tanto prazer em revelar minha verdadeira idade. É para ver as pessoas admiradas. Meus 50 anos não são um peso, mas um prêmio, um troféu, uma tocha olímpica que carrego com orgulho pela vida afora. Que é que você pensa? Sou uma cinqüentona e ainda bato um bolão!

E, nesse clima de feliz comemoração, varamos a noite, o champanhe gelado, o vinho rubro. E não é preciso dizer que a aniversariante reinou o tempo todo, dançando sem parar, nocauteando homens até dez anos mais novos do que ela. Como o seu próprio marido, o terceiro, que no sábado próximo estará completando 41 anos.

Sei que nem todas as mulheres são Sylvia. E que, para ser como ela, é preciso muita vontade, algum sacrifício e uma boa dose de herança genética. Mas o mais necessário mesmo é a disposição para a felicidade e a certeza de que sempre, sempre estará em tempo de viver uma vida produtiva. De qualquer maneira, mesmo as que não são Sylvia se sentem hoje mais livres do que nunca desse estigma que por décadas marcou todas elas e produziu um repertório imenso de piadas infames e cruéis: diminuir a idade. Concluí que hoje em dia as mulheres de 50 não têm mais do que 30! Verdade. Muitas das minhas amigas já passaram dessa marca e nunca se sentiram tão bem.

Em 1980 escrevi alguns programas da série Malu Mulher para Regina Duarte. Num deles, Malu comemorava 33 anos. Dei a esse episódio o título Antes dos 40, depois dos 30, colocando esse período de dez anos como o mais positivo na vida de uma mulher. Seu tempo de felicidade. Bem, isso foi em 1980. Vinte e cinco anos atrás. Hoje eu não escreveria essa história. Hoje sei que uma mulher pode ser feliz para sempre, levantando-se a cada tombo. Em sua maioria, elas já não entram em crise por causa da idade. Claro que não querem envelhecer.

Ninguém quer. Mas esse não querer não está ligado apenas à aparência, mas à saúde, à boa disposição para enfrentar o dia e... - sem nenhuma dúvida - à certeza de que não existe idade que as impeçam de amar, ser amadas. E de ainda fazer bonito entre os lençóis de uma cama. Sylvia, por exemplo, tem tudo para botar um garotão com a língua de fora, sôfrego, cansado, pedindo um tempo.

Eu me lembro de uma vizinha, quando eu era criança, que, quando foi subitamente abandonada pelo marido, provocou em minha mãe esta frase: "Pobre Dolores! Sozinha aos 50 anos! O que vai ser dela agora?". A consternação da minha mãe traduzia o que se pensava de uma mulher que tivesse ultrapassado a marca dos 25, 30 anos no máximo. Uma velha. Não sei o que aconteceu com a pobre Dolores, mas acredito que tenha arrastado por toda a vida a amargura e a desesperança. Atualmente, uma separação aos 50 anos pode ser o começo de um novo tempo, muitas vezes melhor, mais feliz do que o anterior. Sem contar que, nos dias de hoje, um casamento que vai mal das pernas não dura até a mulher chegar aos 50. Acaba antes, já que elas não carregam uma vida infeliz por muito tempo.

Nas minhas novelas procuro retratar as mulheres maduras, essas que já passaram dos 40. São elas que têm as melhores histórias para contar, as confissões mais tocantes, as lembranças mais ternas, os episódios mais picantes. Que ainda sofrem e choram, sim, mas que não sofrem nem choram para sempre. E que, quando fazem 50 anos, dão festa, convidam os amigos, apagam as velinhas e fazem coro em causa própria, cantando o Parabéns pra Você!

Por isso digo e repito: bem-aventuradas as cinqüentonas! As que se renovam a cada dia, a cada instante, e que podem renascer incessante e indefinidamente, repetindo os versos de Cecília Meireles:

"Aprendi com a primavera a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira".

Imagem: Google

LONGEVIDADE

9 de maio de 2009 2 comentários

DR

Rosa Pena

Querido filho Tavinho.

Hoje você completa trinta e um anos! Ula lá!
Lembrei de uma música.”Não confie em ninguém com mais de trinta”. Será que agora em nossa DR (discussão de relação) também vai pairar desconfiança? Que santa Menopausa não permita.

Deixei seus presentes e essa cartinha com todo o meu carinho.

Coloquei também algumas besteirinhas escondidas pelo seu quarto. Tente achá-las como fazia com os ovinhos da páscoa. Ah! Quanto aos seus presentes que estão no sofá, espero que goste deles, pois comprei da mesma forma com que você comprou os meus no dia das mães. Com todo afeto e como você bem disse:

A gente tem que dar algo que realmente combine com quem vai receber.

Espero que faça uma boa leitura do livro “Adolescentes rebeldes”, assim como estou fazendo do que ganhei de você: “Saúde na Terceira Idade".

Também tive o cuidado de comprar um pijama bem solto, para não apertar seus documentos, você sempre teve horror de fraldas apertadas. Ah! A cinta que me deu das lojas “
Marisa” ainda não usei, mas entendi a sua escolha recair no manequim 48. Mulheres de mais de cinqüenta, ainda que magras, sempre serão obesas... Né? Estou guardando para quando você for independente e quem sabe finalmente se casar com a Marilú. Rogo ao bom Deus que se casado você não se separe e volte para casa. Agora os casamentos não duram, pois todo mundo descobriu que é só voltar pra casa da mãe, sendo ela ou não Joana. Torço para que sua esposa sempre faça para você a sua vitamina de mamão, acerola, laranja, kiwi, colocando apenas açúcar mascavo. Por sinal a dita está pronta no liquidificador. Lembre-se, pelo menos uma vez na vida, de deixar o copo com um pouquinho de água no fundo, senão depois para lavar é uma merda.

Tive que sair para cortar os cabelos no salão Paraíso. Padeço lá na espera, mas toda mãe que se preza sempre padeceu! Fiquei anos sem poder freqüentar cabeleireiros para pagar uma psicóloga e criar você sem traumas. Acho que você não tem praticamente nenhum, exceto o de ver TV deitado no sofá da sala o dia todo. Será que sem querer passei pra você algum transtorno de divã?


Às vezes até me arrependo de não tê-lo colocado na escola de circo. Afinal acrobacia com bolas no sinal é um trabalho! Mas fazer o quê? Agora Inês, minha psicanalista, é morta e você formado em oceanografia pela Universidade da Cidade Virtual. Pena que se formou só para continuar a surfar. Nunca quis saber de peixes, exceto do Godofredo que vive no aquário, aliás, eu já dei comida pra ele, senão o bichinho morre. Mães! Mas as mães não devem interferir nas escolhas. Todo cuidado é pouco com o emocional de um filho.

Despeço-me com assobios de parabéns, parabéns, hoje é o seu dia, que dia mais feliz. É a música da Xuxa. E dessa “com quem será, com quem será, com quem será que o Tavinho vai casar”, recorda?

Beijos da mamãe

Cacilda.


P.S. Seus cachorros já levei para passear, senão eles cagavam na sala. Lembre-se de que hoje, quando for para a terapia, não deve e nem pode colocar culpas de maneira alguma em mim, mas sim em outra ancestral (de sua bisavó para trás), pois eu já culpei a minha mãe e ela a dela. Não sei o nome de sua tataravó, mas acredito que seja ela a responsável por você ser oceanógrafo desempregado, surfista aposentado e dependente de mim. Te amo!

Obs: Os personagens são imaginários

Obra completa de rosa pena.Clique em:

www.rosapena.com

O único defeito da mulher

8 de março de 2009 4 comentários


Escolhi o texto do Sérgio, porque me encantou, farei uso dele, para prestar uma homenagem à todas as mulheres, amigas, leitoras e blogueiras. Aplausos para o autor, e para os homens que nos veem com essa visão.

beijão meninas.




"Se uma memória restou das festinhas e reuniões de familiares da minha infância, foi a divisão sexual entre os convivas: mulheres de um lado, homens do outro. Não sei se hoje isso ainda ocorre. Sou anti-social ao ponto de não freqüentar qualquer evento com mais de 4 pessoas, o que não me credencia a emitir juízo. Mas era assim que a coisa rolava naqueles tempos. Tive uma infância feliz: sempre fui considerado esquisito,
estranho e solitário, o que me permitia ficar quieto observando a paisagem.

Bom, rapidinho verifiquei que o apartheid sexual ia muito além das diferenças anatômicas. A fronteira era determinada pelos pontos de vista, atitude e prioridades. Explico: no "córner" masculino imperava o embate das comparações e disputas. "Meu carro é mais potente, minha TV é mais moderna, meu salário é maior, a vista do meu apartamento é melhor, meu time é mais forte, eu dou 3 por noite", e outras cascatas típicas da macheza latina. Já no "córner" oposto, respirava- se outro ar. As opiniões eram quase sempre ligadas ao sentir. Falava- se de sentimentos, frustrações e recalques com uma falta de cerimônia que me deliciava.

Os maridos preferiam classificar aquele ti-ti-ti como fofoca. Discordo.
Destas reminiscências infantis veio a minha total e irrestrita paixão pelas mulheres. Constatem, é fácil. Enquanto o homem vem ao mundo completamente cru, freqüentando e levando bomba no be-a-bá da vida, as mulheres já chegam na metade do segundo grau. Qualquer menina de 2 ou 3 anos já tem preocupações de ordem prática. Ela brinca de casinha e aprende a dar um pouco de ordem nas coisas. Ela pede uma bonequinha que chama de filha e da qual cuida, instintivamente, como qualquer mãe veterana.

Ela fala em namoro mesmo sem ter uma idéia muito clara do que vem a ser isso. Em outras palavras, ela já chega sabendo. E o que não sabe, intui. Já com os homens a historia é outra. Você já viu um menino dessa idade brincando de executivo? Já ouviu falar de algum moleque fingindo ir ao banco pagar as contas? Já presenciou um bando de meninos fingindo estar preocupados com a entrega da declaração do Imposto de Renda? Não, nunca viram e nem verão. Porque o homem nasce, vive e morre uma existência infanto juvenil. O que varia ao longo da vida é o preço dos brinquedos. Aí reside a maior diferença. O que para as meninas é treino para a vida, para os meninos é fantasia, e competição. Então a fuga os acompanha o resto da vida, e não percebem quanto tempo eles perdem com seus medos.

Falo sem o menor pudor. Sou assim, todo homem é assim. Em relação ao relacionamento homem/mulher, sempre me considerei um privilegiado.
Sempre consegui enxergar a beleza física feminina mesmo onde, segundo os critérios estéticos vigentes, ela inexistia. Porque toda mulher é linda. Se não no todo, pelo menos em algum detalhe. É só saber olhar.
Todas têm sua graça.

E embora contaminado pela irreversível herança genética que me faz idolatrar os ícones de cafajestismo, sempre me apaixonei perdidamente por todas as incautas que se aproximaram de mim.
Incautas não por serem ingênuas, mas por acreditarem.
Porque toda mulher acredita firmemente na possibilidade do homem ideal.E esse é o seu único defeito..."

Texto de Sérgio Gonçalves, redator da Loducca, publicado no jornal da agência.

Quindins na portaria - Martha Medeiros

26 de janeiro de 2009 3 comentários



Estava lendo o novo livro do Paulo Hecker Filho, Fidelidades, onde, numa de suas prosas poéticas, ele conta que, antigamente, deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio do Mario Quintana: ‘Para estar ao lado sem pesar com a presença’.
Há outras histórias e poemas interessantes no livro, mas me detive nesta frase porque o não pesar os outros com nossa presença é um raro estalo de sensibilidade.
Para a maioria das pessoas, isso que chamo de um raro estalo de sensibilidade tem outro nome: frescura. Afinal, todo mundo gosta de carinho, todo mundo quer ser visitado, ninguém pesa com sua presença num mundo já tão individualista e solitário.
Ah, pesa.
Até mesmo uma relação íntima exige certos cuidados. Eu bato na porta antes de entrar no quarto das minhas filhas e na de meu próprio quarto, se sei que está ocupado.
Eu pergunto para minha mãe se ela está livre antes de prosseguir com uma conversa por telefone. Eu não faço visitas inesperadas a ninguém, a não ser em caso de urgência, mas até minhas urgências tive a sorte de que fossem delicadas.
Pessoas não ficam sentadas em seus sofás aguardando a chegada do Messias, o que dirá a do vizinho. Pessoas estão jantando. Pessoas estão preocupadas. Pessoas estão com o seu blusão preferido, aquele meio sujo e rasgado, que elas só usam quando ninguém está vendo. Pessoas estão chorando.
Pessoas estão assistindo a seu programa de tevê favorito.
Pessoas estão se amando. Avise que está a caminho.
Frescura, jura? Então tá, frescura, que seja.
Adoro e-mails justamente porque são sempre bem-vindos, e posso retribuí-los sabendo que nada interromperei do lado de lá. Sem falar que encurtam o caminho para a intimidade. Dizemos pelo computador coisas que face a face seriam mais trabalhosas.
Por não ser ao vivo, perde o caráter afetivo?
Nem se discute que o encontro é sagrado. Mas é possível estar ao lado de quem a gente gosta por outros meios. Quando leio um livro indicado por uma amiga, fico mais próxima dela. Quando mando flores, vou junto com o cartão.
Já visitei um pequeno lugarejo só para sentir o impacto que uma pessoa querida havia sentido, anos antes. Também é estar junto.
Sendo assim, bilhetes, e-mails, livros e quindins na portaria não é distância: é só um outro tipo de abraço.

Quindins na portaria - Martha Medeiros

3 comentários



Estava lendo o novo livro do Paulo Hecker Filho, Fidelidades, onde, numa de suas prosas poéticas, ele conta que, antigamente, deixava bilhetes, livros e quindins na portaria do prédio do Mario Quintana: ‘Para estar ao lado sem pesar com a presença’.
Há outras histórias e poemas interessantes no livro, mas me detive nesta frase porque o não pesar os outros com nossa presença é um raro estalo de sensibilidade.
Para a maioria das pessoas, isso que chamo de um raro estalo de sensibilidade tem outro nome: frescura. Afinal, todo mundo gosta de carinho, todo mundo quer ser visitado, ninguém pesa com sua presença num mundo já tão individualista e solitário.
Ah, pesa.
Até mesmo uma relação íntima exige certos cuidados. Eu bato na porta antes de entrar no quarto das minhas filhas e na de meu próprio quarto, se sei que está ocupado.
Eu pergunto para minha mãe se ela está livre antes de prosseguir com uma conversa por telefone. Eu não faço visitas inesperadas a ninguém, a não ser em caso de urgência, mas até minhas urgências tive a sorte de que fossem delicadas.
Pessoas não ficam sentadas em seus sofás aguardando a chegada do Messias, o que dirá a do vizinho. Pessoas estão jantando. Pessoas estão preocupadas. Pessoas estão com o seu blusão preferido, aquele meio sujo e rasgado, que elas só usam quando ninguém está vendo. Pessoas estão chorando.
Pessoas estão assistindo a seu programa de tevê favorito.
Pessoas estão se amando. Avise que está a caminho.
Frescura, jura? Então tá, frescura, que seja.
Adoro e-mails justamente porque são sempre bem-vindos, e posso retribuí-los sabendo que nada interromperei do lado de lá. Sem falar que encurtam o caminho para a intimidade. Dizemos pelo computador coisas que face a face seriam mais trabalhosas.
Por não ser ao vivo, perde o caráter afetivo?
Nem se discute que o encontro é sagrado. Mas é possível estar ao lado de quem a gente gosta por outros meios. Quando leio um livro indicado por uma amiga, fico mais próxima dela. Quando mando flores, vou junto com o cartão.
Já visitei um pequeno lugarejo só para sentir o impacto que uma pessoa querida havia sentido, anos antes. Também é estar junto.
Sendo assim, bilhetes, e-mails, livros e quindins na portaria não é distância: é só um outro tipo de abraço.

Encontro com o passado - Elysio Lugarinho Netto

14 de janeiro de 2009 comente

"E por falar em saudade, onde anda você... "
Ele atravessou a rua e a viu mais adiante. Mary. Loiríssima, linda, na calçada, junto ao meio-fio, parada. Os anos não mudaram o seu rosto.

- Não acredito! Foi cerimoniosa. Enrubesceu.
- Você por aqui?
- Moro nesta cidade. E você?
- Estou passando dias, aproveitando o frio.
- Sei... E o que tem feito?
- Ih... O meu marido chegou!
Ela entrou no automóvel. Com o olhar, ele acompanhou seu passado até dobrar à direita, no final da avenida. Resmungou:
- Maldito Porsche, acelera de 0 a 100 em 5 segundos.


Encontro com o passado - Elysio Lugarinho Netto

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"E por falar em saudade, onde anda você... "
Ele atravessou a rua e a viu mais adiante. Mary. Loiríssima, linda, na calçada, junto ao meio-fio, parada. Os anos não mudaram o seu rosto.

- Não acredito! Foi cerimoniosa. Enrubesceu.
- Você por aqui?
- Moro nesta cidade. E você?
- Estou passando dias, aproveitando o frio.
- Sei... E o que tem feito?
- Ih... O meu marido chegou!
Ela entrou no automóvel. Com o olhar, ele acompanhou seu passado até dobrar à direita, no final da avenida. Resmungou:
- Maldito Porsche, acelera de 0 a 100 em 5 segundos.


Despedida do TREMA - Colaboração Alexander Striemer

1 de janeiro de 2009 comente

Como outros já fizeram, quero também me despedir do trema, cuja morte foi anunciada por decreto a partir de 1º de janeiro:

Não uma, mas cinqüenta e cinco vezes, quero me despedir desta acentuação antiqüíssima e usada com tanta freqüência. Fomos argüídos a respeito?
Claro que não! A ambigüidade que tínhamos para decidir se queríamos usar o trema ou não numa frase nos foi seqüestrada para sempre. Afinal, a ubiqüidade do trema nunca nos foi exigida.

Quem deve se beneficiar com esta tão inconseqüente medida? Creio que tão somente os alcagüetes, os delinqüentes e os sangüinários, justamente aqueles que não estão eqüidistantes, como nós, dos valores eqüiláteros da Sociedade.

Vocês já se argüiram sobre as conseqüências do fim do trema para os pingüins, os sagüis e os eqüestres? Estes perderão uma identidade conquistada desde a antigüidade.

E o que dizer do nosso herói Anhangüera, que vivia tranqüilo com o seu nome indígena? Com a liqüidação do trema, a pronúncia do seu nome não será mais exeqüível.
Os nossos papos de chopp nunca mais serão os mesmos, pois a tão freqüente lingüicinha acebolada vai desagüar num sangüíneo esquecimento.

O que vai acontecer com o grão de bico com gergelim, agora sem o liqüidificador para prepará-lo?
Ah, meu Deus! Tenha piedade de nós! Nunca mais poderemos escrever que "a última enxagüada é a que fica"!

Não sei se vou agüentar a perda da eloqüência, em termos de estilo literário, que o trema trazia à Última Flor do Lácio.
É preciso que averigüemos se haverá seqüelas futuras! E para onde vai a grandiloqüência dos lingüistas?
Haja ungüento para suportar tamanha dor!

O que podemos esperar em seqüência? Será que não se poderia esperar mais um qüinqüênio para que fossem melhor avaliados os líqüidos benefícios desta mudança?

Portanto, pela qüinqüagésima vez, a minha voz exangüe se une à dos bilíngües e trilíngües como eu, cuja consangüinidade lingüística e contigüidade sintática se revolta ante tamanha iniqüidade.

Pedir que nos apazigüemos, para mim é inexeqüível, pois falta-nos tranqüilidade diante de tamanha delinqüência gramatical.
Portanto é com dor no coração que lhe dou este meu adeus desmilingüido.

Adeus, meu trema querido! Mas pelo menos uma coisa me apazigüa, pois quando a saudade bater, sei que vou poder revê-lo quando estiver lendo alguma coisa em alemão.
Desconheço a autoria, mas a-d-o-r-e-i!

Despedida do TREMA - Colaboração Alexander Striemer

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Como outros já fizeram, quero também me despedir do trema, cuja morte foi anunciada por decreto a partir de 1º de janeiro:

Não uma, mas cinqüenta e cinco vezes, quero me despedir desta acentuação antiqüíssima e usada com tanta freqüência. Fomos argüídos a respeito?
Claro que não! A ambigüidade que tínhamos para decidir se queríamos usar o trema ou não numa frase nos foi seqüestrada para sempre. Afinal, a ubiqüidade do trema nunca nos foi exigida.

Quem deve se beneficiar com esta tão inconseqüente medida? Creio que tão somente os alcagüetes, os delinqüentes e os sangüinários, justamente aqueles que não estão eqüidistantes, como nós, dos valores eqüiláteros da Sociedade.

Vocês já se argüiram sobre as conseqüências do fim do trema para os pingüins, os sagüis e os eqüestres? Estes perderão uma identidade conquistada desde a antigüidade.

E o que dizer do nosso herói Anhangüera, que vivia tranqüilo com o seu nome indígena? Com a liqüidação do trema, a pronúncia do seu nome não será mais exeqüível.
Os nossos papos de chopp nunca mais serão os mesmos, pois a tão freqüente lingüicinha acebolada vai desagüar num sangüíneo esquecimento.

O que vai acontecer com o grão de bico com gergelim, agora sem o liqüidificador para prepará-lo?
Ah, meu Deus! Tenha piedade de nós! Nunca mais poderemos escrever que "a última enxagüada é a que fica"!

Não sei se vou agüentar a perda da eloqüência, em termos de estilo literário, que o trema trazia à Última Flor do Lácio.
É preciso que averigüemos se haverá seqüelas futuras! E para onde vai a grandiloqüência dos lingüistas?
Haja ungüento para suportar tamanha dor!

O que podemos esperar em seqüência? Será que não se poderia esperar mais um qüinqüênio para que fossem melhor avaliados os líqüidos benefícios desta mudança?

Portanto, pela qüinqüagésima vez, a minha voz exangüe se une à dos bilíngües e trilíngües como eu, cuja consangüinidade lingüística e contigüidade sintática se revolta ante tamanha iniqüidade.

Pedir que nos apazigüemos, para mim é inexeqüível, pois falta-nos tranqüilidade diante de tamanha delinqüência gramatical.
Portanto é com dor no coração que lhe dou este meu adeus desmilingüido.

Adeus, meu trema querido! Mas pelo menos uma coisa me apazigüa, pois quando a saudade bater, sei que vou poder revê-lo quando estiver lendo alguma coisa em alemão.
Desconheço a autoria, mas a-d-o-r-e-i!

Como pedir uma pizza em 2010 - Luiz Fernando Veríssimo

10 de dezembro de 2008 1 comentário


Telefonista: Pizza Hot, boa noite!
Cliente: Boa noite! Quero encomendar pizzas...
Telefonista: Pode me dar o seu NIDN?
Cliente: Sim, o meu número de identificação nacional é 6102-1993-8456-54632107.
Telefonista:Obrigada, Sr.Lacerda. Seu endereço é Avenida Paes de Barros, 1988 ap. 12 B, e o número de seu telefone é 5494-2366, certo? O telefone do seu escritório da Lincoln Seguros é o 5745-2302 e o seu celular é 9266-2566.
Cliente: Como você conseguiu essas informações todas?
Telefonista: Nós estamos ligados em rede ao Grande Sistema Central.
Cliente: Ah, sim, é verdade! Eu queria encomendar duas pizzas, uma de quatro queijos e outra de calabresa...
Telefonista: Talvez não seja uma boa idéia...
Cliente: O quê?
Telefonista: Consta na sua ficha médica que o Senhor sofre de hipertensão e tem a taxa de colesterol muito alta. Além disso, o seu seguro de vida proíbe categoricamente escolhas perigosas para a sua saúde.
Cliente: É você tem razão! O que você sugere?
Telefonista:Por que o Senhor não experimenta a nossa pizza Superlight, com tofu e rabanetes? O Senhor vai adorar!
Cliente: Como é que você sabe que vou adorar?
Telefonista:O Senhor consultou o site 'Recettes Gourmandes au Soja' da Biblioteca Municipal,dia 15 de janeiro, às 4h27minh, onde permaneceu conectado à rede durante 39 minutos.
Daí a minha sugestão...
Cliente: OK está bem! Mande-me duas pizzas tamanho família!
Telefonista:É a escolha certa para o Senhor, sua esposa e seus 4 filhos, pode ter certeza.
Cliente: Quanto é?
Telefonista: São R$ 49,99.
Cliente: Você quer o número do meu cartão de crédito?
Telefonista:Lamento, mas o Senhor vai ter que pagar em dinheiro. O limite do seu cartão de crédito já foi ultrapassado.
Cliente: Tudo bem, eu posso ir ao Multibanco sacar dinheiro antes que chegue a pizza. Telefonista: Duvido que consiga! O Senhor está com o saldo negativo no banco.
Cliente: Meta-se com a sua vida! Mande-me as pizzas que eu arranjo o dinheiro. Quando é que entregam?
Telefonista: Estamos um pouco atrasados, serão entregues em 45 minutos. Se o Senhor estiver com muita pressa pode vir buscá-las, se bem que transportar duas pizzas na moto não é aconselhável, além de ser perigoso...
Cliente: Mas que história é essa, como é que você sabe que eu vou de moto?
Telefonista: Peço desculpas, mas reparei aqui que o Sr. não pagou as últimas prestações do carro e ele foi penhorado. Mas a sua moto está paga, e então pensei que fosse utilizá-la.
Cliente: @#%/§@&?#>§/%#!!!!!!!!!!!!!
Telefonista: Gostaria de pedir ao Senhor para não me insultar... Não se esqueça de que o Senhor já foi condenado em julho de 2006 por desacato em público a um Agente Regional.
Cliente: (Silêncio)
Telefonista:Mais alguma coisa?
Cliente: Não, é só isso... Não, espere... Não se esqueça dos 2 litros de Coca-Cola que constam na promoção.
Telefonista:Senhor, o regulamento da nossa promoção, conforme citado no artigo 3095423/12, nos proíbe de vender bebidas com açúcar a pessoas diabéticas...
Cliente: Aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!!!!! Vou me atirar pela janela!!!!!
Telefonista:E machucar o joelho? O Senhor mora no primeiro andar!

Como pedir uma pizza em 2010 - Luiz Fernando Veríssimo

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Telefonista: Pizza Hot, boa noite!
Cliente: Boa noite! Quero encomendar pizzas...
Telefonista: Pode me dar o seu NIDN?
Cliente: Sim, o meu número de identificação nacional é 6102-1993-8456-54632107.
Telefonista:Obrigada, Sr.Lacerda. Seu endereço é Avenida Paes de Barros, 1988 ap. 12 B, e o número de seu telefone é 5494-2366, certo? O telefone do seu escritório da Lincoln Seguros é o 5745-2302 e o seu celular é 9266-2566.
Cliente: Como você conseguiu essas informações todas?
Telefonista: Nós estamos ligados em rede ao Grande Sistema Central.
Cliente: Ah, sim, é verdade! Eu queria encomendar duas pizzas, uma de quatro queijos e outra de calabresa...
Telefonista: Talvez não seja uma boa idéia...
Cliente: O quê?
Telefonista: Consta na sua ficha médica que o Senhor sofre de hipertensão e tem a taxa de colesterol muito alta. Além disso, o seu seguro de vida proíbe categoricamente escolhas perigosas para a sua saúde.
Cliente: É você tem razão! O que você sugere?
Telefonista:Por que o Senhor não experimenta a nossa pizza Superlight, com tofu e rabanetes? O Senhor vai adorar!
Cliente: Como é que você sabe que vou adorar?
Telefonista:O Senhor consultou o site 'Recettes Gourmandes au Soja' da Biblioteca Municipal,dia 15 de janeiro, às 4h27minh, onde permaneceu conectado à rede durante 39 minutos.
Daí a minha sugestão...
Cliente: OK está bem! Mande-me duas pizzas tamanho família!
Telefonista:É a escolha certa para o Senhor, sua esposa e seus 4 filhos, pode ter certeza.
Cliente: Quanto é?
Telefonista: São R$ 49,99.
Cliente: Você quer o número do meu cartão de crédito?
Telefonista:Lamento, mas o Senhor vai ter que pagar em dinheiro. O limite do seu cartão de crédito já foi ultrapassado.
Cliente: Tudo bem, eu posso ir ao Multibanco sacar dinheiro antes que chegue a pizza. Telefonista: Duvido que consiga! O Senhor está com o saldo negativo no banco.
Cliente: Meta-se com a sua vida! Mande-me as pizzas que eu arranjo o dinheiro. Quando é que entregam?
Telefonista: Estamos um pouco atrasados, serão entregues em 45 minutos. Se o Senhor estiver com muita pressa pode vir buscá-las, se bem que transportar duas pizzas na moto não é aconselhável, além de ser perigoso...
Cliente: Mas que história é essa, como é que você sabe que eu vou de moto?
Telefonista: Peço desculpas, mas reparei aqui que o Sr. não pagou as últimas prestações do carro e ele foi penhorado. Mas a sua moto está paga, e então pensei que fosse utilizá-la.
Cliente: @#%/§@&?#>§/%#!!!!!!!!!!!!!
Telefonista: Gostaria de pedir ao Senhor para não me insultar... Não se esqueça de que o Senhor já foi condenado em julho de 2006 por desacato em público a um Agente Regional.
Cliente: (Silêncio)
Telefonista:Mais alguma coisa?
Cliente: Não, é só isso... Não, espere... Não se esqueça dos 2 litros de Coca-Cola que constam na promoção.
Telefonista:Senhor, o regulamento da nossa promoção, conforme citado no artigo 3095423/12, nos proíbe de vender bebidas com açúcar a pessoas diabéticas...
Cliente: Aaaaaaaahhhhhhhh!!!!!!!!!!! Vou me atirar pela janela!!!!!
Telefonista:E machucar o joelho? O Senhor mora no primeiro andar!

Marcas de expressão - desconheço o autor (a) Colaboração da Mariana

29 de novembro de 2008 1 comentário


















Eu, tirar minhas marcas de expressão?

Qual o por quê de extraí-las se foram elas que me deram expressão?
Limpar da minha vida as tristezas que fizeram traços na minha testa. Não, mil vezes, não!
Prefiro aprender com a minha fronte.
Varrer do canto dos olhos os sorrisos que eu dei, as alegrias que eu tive, é uma forma
estúpida de estética, como se eu fosse alisar minhas experiências, as que eu vivi com muito
custo e honra, apesar de algumas dores.
Esticar minha cara contra a natureza?
Embonecar-me como um brinquedo em série?
Nada disso traz a verdade.
Se daqui a pouco a minha papada estará mole é porque cantei muito,
falei do meu amor pelos quatro cantos do mundo e por todos os cantos da boca...
E se há cabelos brancos foi porque eu comecei a acender melhor minhas idéias.
Se hoje eu não corro e me canso com mais facilidade é porque tenho a vivência de saber que muitos passos

que damos são dados em falso, trôpegos até.
Qtas vezes escorreguei pelas ciladas do "destino"?
Quantos buracos, qtos caminhos errantes, qtas bifurcações.
Minhas pernas seguem mais lentas, todavia precavidas dos acidentes de percurso.
Quando vejo uma pedra, não mais a chuto, deixo que ela fique em seu lugar.
Meus braços não querem tantos músculos definidos e sim, a definição de um abraço afetuoso.
Agora solto mais minha barriga.

Já não tenho mais quase medo.
Já não reteso tanto minhas emoções e nem as guardo no armário embutido do abdômen.
A barriga era mais dura, eu era mais durinha e a vida, pra mim, também já foi muito dura.
Sentia com o estômago.
Apaixonava-me com o fígado, sofria muito pelo intestino.
Pra quê uma barriga lisinha e um ralo de esgotos na cabeça?
Não posso dizer que nunca mais tive emoções tão indigestas.
A diferença é que o alimento que vem dos outros me faz menos mal e a minha digestão é mais segura e confiante.
Apenas ando, caminho com as árvores, as abraço, dou nome a elas. Olho pro céu, hoje, olho pro céu e procuro as estrelas mais próximas, busco as distantes, apesar de não enxergá-las com os olhos. Piso meus pés na terra, seca ou molhada, tanto faz, mas sinto sua pele. Parece incrível sentir o coração do Planeta com os pés. As flores são vistas, outrora, desprezadas. As plantas dormem ao meu lado. Falo com os bichos e escuto suas frases. Antes minha surdez era mais jovem. Posso dizer
que, agora, minha voz, mais rouca e mais fraca, é capaz de dizer que ama com muito mais firmeza e verdade. E como já disseram um dia: Não sou eu quem faz os anos, os anos é que me fazem.
Deixa as minhas marcas de expressão, cada uma em seu lugar. Sinal que já vivi, cada uma delas tem uma história pra contar. Quem sabe um dia eu as conto pra você, quem sabe...

Marcas de expressão - desconheço o autor (a) Colaboração da Mariana

1 comentário


















Eu, tirar minhas marcas de expressão?

Qual o por quê de extraí-las se foram elas que me deram expressão?
Limpar da minha vida as tristezas que fizeram traços na minha testa. Não, mil vezes, não!
Prefiro aprender com a minha fronte.
Varrer do canto dos olhos os sorrisos que eu dei, as alegrias que eu tive, é uma forma
estúpida de estética, como se eu fosse alisar minhas experiências, as que eu vivi com muito
custo e honra, apesar de algumas dores.
Esticar minha cara contra a natureza?
Embonecar-me como um brinquedo em série?
Nada disso traz a verdade.
Se daqui a pouco a minha papada estará mole é porque cantei muito,
falei do meu amor pelos quatro cantos do mundo e por todos os cantos da boca...
E se há cabelos brancos foi porque eu comecei a acender melhor minhas idéias.
Se hoje eu não corro e me canso com mais facilidade é porque tenho a vivência de saber que muitos passos

que damos são dados em falso, trôpegos até.
Qtas vezes escorreguei pelas ciladas do "destino"?
Quantos buracos, qtos caminhos errantes, qtas bifurcações.
Minhas pernas seguem mais lentas, todavia precavidas dos acidentes de percurso.
Quando vejo uma pedra, não mais a chuto, deixo que ela fique em seu lugar.
Meus braços não querem tantos músculos definidos e sim, a definição de um abraço afetuoso.
Agora solto mais minha barriga.

Já não tenho mais quase medo.
Já não reteso tanto minhas emoções e nem as guardo no armário embutido do abdômen.
A barriga era mais dura, eu era mais durinha e a vida, pra mim, também já foi muito dura.
Sentia com o estômago.
Apaixonava-me com o fígado, sofria muito pelo intestino.
Pra quê uma barriga lisinha e um ralo de esgotos na cabeça?
Não posso dizer que nunca mais tive emoções tão indigestas.
A diferença é que o alimento que vem dos outros me faz menos mal e a minha digestão é mais segura e confiante.
Apenas ando, caminho com as árvores, as abraço, dou nome a elas. Olho pro céu, hoje, olho pro céu e procuro as estrelas mais próximas, busco as distantes, apesar de não enxergá-las com os olhos. Piso meus pés na terra, seca ou molhada, tanto faz, mas sinto sua pele. Parece incrível sentir o coração do Planeta com os pés. As flores são vistas, outrora, desprezadas. As plantas dormem ao meu lado. Falo com os bichos e escuto suas frases. Antes minha surdez era mais jovem. Posso dizer
que, agora, minha voz, mais rouca e mais fraca, é capaz de dizer que ama com muito mais firmeza e verdade. E como já disseram um dia: Não sou eu quem faz os anos, os anos é que me fazem.
Deixa as minhas marcas de expressão, cada uma em seu lugar. Sinal que já vivi, cada uma delas tem uma história pra contar. Quem sabe um dia eu as conto pra você, quem sabe...

Chá de afeto - Rosa Pena

14 de novembro de 2008 1 comentário


“Tenho amigos que não sabem o quanto são meus amigos.
Não percebem o amor que lhes devoto e a absoluta necessidade que tenho deles.”
Vinicius de Moraes

Com tanta tecnologia nesse nosso mundo pra lá de contemporâneo cada vez mais diminuímos distâncias. Virou moleza assistir em tempo real nossos atletas recebendo medalhas do outro lado do mundo, chorar das piadas idiotas na entrega do Oscar, ver famintos de uma África esquecida, sofrer por mais uma bomba explodida em alguma guerra sem nexo, gritar para o Felipe Massa ser campeão.

Visão e audição, dois órgãos dos sentidos dominados pela máquina racional, mas faltam três ou não faltam? Escritores são mestres em imaginação e os roteiros de vida bem conduzidos levam nossas mentes longe. Graças a Deus para nós não falta nenhum!
Assim sendo, sinto mãos macias acariciando meu rosto, um abraço forte de fato. Mas é no odor e no paladar que encontro à quimera que mais me fascina. Sinto cheiros em cada recado que recebo e saboreio letras. Alguns vêm com Alecrim, planta que vive sob o domínio do sol que ama o calor e a vida, outros com alfazema que alivia as dores do coração, tem os de hortelã, erva da amizade e do amor, muitos de jasmim que é eufórico e afugenta a depressão, alguns de maracujá, fruto da paixão.

Nesse meu momento de recolhimento com os aromas e as infusões dos meus amigos ("Um bicho igual a mim, simples e humano"), minha alma fica cheirosa, meu espírito fica doce. Entre menta, cravo e canela começo a sentir a vida mais bela, apesar da chuva insistente ainda bater na janela da minha mente. Mas quem garante que amanhã não virá o sol?

Sobre a Rosa,

Dizem por aí, que amigo virtual é falso, não é verdade, mesmo não conhecendo pessoalmente a Rosa, eu tenho grande afeto por ela, é uma amiga, que a tecnologia me ofertou, conheço-a por foto, pelas suas poesias, suas crônicas e livros e ler os seus textos é sempre um imenso prazer.
Vale a pena ler os textos da Rosinha veja

aqui