NATHALIA TAVOLIERI (REPORTAGEM), COM
PEDRO SCHIMIDT E RENATO TANIGAWA (VÍDEO)
10/06/2014 07h20 - Atualizado em 11/06/2014 11h46
Cresce o número de contaminados na terceira idade com o Vírus da Imunodeficiência Humana, o causador da aids. Falta de preservativo nas relações sexuais é o principal disseminador
João* tem 68 anos. É HIV+
(Foto: Nathalia Tavolieri / ÉPOCA)
João* é um cara descolado. Usa calças jeans justas, tênis da moda e
camisetas de times de futebol europeus. No pescoço, corrente larga, de ouro,
combinando com a pulseira. Vai à academia todos os dias. Gosta de puxar ferro.
Não tem vergonha de puxar papo com a mulherada. É um "cara da noite".
Bom de dança, dificilmente volta para casa sozinho. Tem um quê de mulherengo.
Ou dois. Ele se encaixaria no perfil do público-alvo daquelas propagandas
veiculadas todo Carnaval para conscientizar os jovens sobre o uso de camisinha.
Exceto por sua idade. João tem 68 anos.
João é um policial militar aposentado, pai de dois filhos “grandes”.
Perdeu a conta de quantas parceiras sexuais já teve desde que se divorciou, há
12 anos. Seu relacionamento "fixo" mais recente foi com uma mulher
mais jovem, de uns 40. Enfermeira, separada e bem resolvida. Ficaram juntos por
três anos. Nos últimos meses do namoro, ele percebeu que ela estava ficando
cada dia mais fraca, magra e com mal-estares frequentes. Ela se submeteu a
diversos exames. Apenas um deu positivo, o "mais improvável" – nas
palavras de João.
Ela havia contraído o Vírus da Imunodeficiência Humana, o HIV (na sigla
em inglês), causador da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, a sida ou a aids. Ao saber do resultado, em janeiro deste
ano, João correu para o Instituto de Assistência Médica do Servidor Público
Estadual (Iamspe-SP), na capital paulista. Em 15 minutos, o teste, que
lembra o de gravidez comprado nas farmácias, deu positivo. Com um exame de
sangue, ele teve a confirmação: era soropositivo.
Dias após o diagnóstico, João terminou o relacionamento. O vírus
continuava circulando por aí. Enquanto estava com a enfermeira, João mantinha
relações sexuais com “mais umas três” parceiras. Ao mesmo tempo. Com elas, o
preservativo também ficava de fora. Ele afirma que foi a enfermeira quem lhe
transmitiu o vírus. "Ela não sabe com quem pegou [o vírus], mas não foi
comigo. Provavelmente, foi numa relação anterior, porque ela estava bem
debilitada quando descobriu. Eu, não." João não contou que é HIV positivo
aos amigos, aos filhos e a nenhuma das suas antigas parceiras – nem às atuais.
"Sinto vergonha."
Os parágrafos acima revelam um fenômeno que se confirma nas
estatísticas. A quantidade de pessoas mais velhas contaminadas com o vírus está
crescendo. De acordo com a edição mais recente do Boletim Epidemiológico Aids e
DST, elaborado pelo Ministério da Saúde, a taxa de detecção do vírus em idosos
aumentou mais de 80% entre 2001 e 2012. Nos últimos quatro anos, o número de
idosos atendidos pelo Programa Prevenir do Iamspe-SP, responsável pelo
atendimento de 10% da população idosa no Estado de São Paulo, quadruplicou. Em
2009, os infectados pelo HIV acima dos 60 anos correspondiam a cerca de 3% do
total. Em 2013, a proporção saltou para 18%.
“O aumento das transmissões de HIV entre idosos é uma tendência
observada em todo o país”, diz o infectologista Marco Broitman, do Iamspe-SP.
Segundo ele, a resistência ao uso de camisinha nas relações sexuais é a causa
principal. "Faltam campanhas de conscientização e prevenção específicas
para esse público.” Na época em que os idosos de hoje iniciaram sua vida sexual,
o uso do preservativo não era comum. A maioria não teve aulas de orientação
sexual na escola e tampouco conversava sobre sexo com os pais. Muitos veem
necessidade da camisinha apenas para evitar a gravidez e acabam dispensando o
preservativo após a menopausa. Por estar associada, para muitos, à ideia de
promiscuidade, a aids é uma doença que parece não combinar com pacientes
grisalhos.
O HIV ainda não tem cura. É um vírus que destrói as células do sistema
imunológico, responsável pela defesa do corpo contra doenças. Em portadores do
vírus que não estão em tratamento, um resfriado qualquer pode evoluir
rapidamente para uma doença respiratória grave. Hoje, os coquetéis de drogas
disponíveis conseguem, na maioria dos casos, retardar a ação do HIV e prolongar
a vida dos infectados.
saiba mais
A máxima de que "quanto antes o diagnóstico, melhor o
prognóstico" também vale para a aids. Em idosos, o diagnóstico, quando é
feito, costuma ser tardio. Grande parte dos soropositivos decide fazer o teste
só quando os sintomas já estão em evidência - e acabam confundidos com doenças
comuns nos idosos, como pneumonia. Foi o que aconteceu com a enfermeira com a
qual João, de quem falamos no início desta reportagem, se relacionou e de quem
acredita ter contraído o vírus. Vez ou outra, ele a telefona para saber
notícias. "Ela está bem abatidinha. Acho que foi porque descobriu a aids
quando já era tarde. Eu fui esperto, descobri logo. Estou bem, levo uma vida
normal."
José*, de 66 anos, descobriu-se soropositivo há 12. Ex-fumante, procurou
o hospital para saber os motivos de tanta falta de ar e canseira que andava
sentindo. Foi diagnosticado com pneumocistose. Durante o período em que ficou
internado para tratar a doença, passou por uma bateria de exames. "Lembro
da expressão de preocupação do médico na hora de dizer que eu havia contraído o
HIV.” José não titubeou. Encarou como se tratasse de outra doença sem
cura, mas com tratamento, como diabetes. Faz exames periódicos e toma os
remédios de forma regrada. "A gente precisa levantar a cabeça e seguir com
a nossa vida em paz", diz José. “Sem drama.”
José tem poucas pistas de quem lhe transmitiu o vírus. Sabe que foi um
homem e durante uma relação sexual. “Nunca usei preservativo”, ele diz.
"Hoje não fico mais me perguntando de quem eu peguei a doença. Já aconteceu.
Bola pra frente."
José, por sorte, não infectou o parceiro – 16 anos mais novo – com quem
transava sem proteção. “Pelas contas do médico, contraí o vírus anos antes de
me envolver com meu parceiro, mas ele é imune ao HIV”, diz José. Na dúvida, o
parceiro fez oito testes, em oito hospitais diferentes. Desde que souberam do
diagnóstico, incluíram o preservativo na rotina. "Meu parceiro sempre
esteve ao meu lado. Nosso amor só cresceu.” A família e amigos de José sabem
que ele é portador do HIV. "Não tenho motivos para esconder. Quem ama está
sujeito ao HIV”, diz José. “É uma doença do amor."
Dormindo com o inimigo
Nalva de Sousa, de 64 anos, sabe nome e sobrenome do homem que lhe
transmitiu o vírus. Dividiu a cama com ele por sete anos. “Nunca usei camisinha,
nem com meu primeiro marido. Confiava neles.” Assim como José, Nalva procurou o
médico porque sentia falta de ar. “Estava tão fraca que mal conseguia ficar de
pé.” Ela diz que, enquanto aguardava na sala de espera do posto de saúde, havia
na parede um cartaz com a frase: “Use camisinha”. “Jamais pensei que
pudesse acontecer comigo, não na minha idade.”
Chegando em casa, Nalva expulsou o companheiro. Ele admitiu que sabia do
vírus e, antes de bater a porta, pediu um último favor: que ela não espalhasse
a notícia pela vizinhança. “Ele não queria que as outras mulheres com quem ele
dormia soubessem que ele tinha HIV.”
O diagnóstico de Nalva chegou tarde. Uma grave pneumonia já havia
acometido seus pulmões. Por mais que tivesse acesso aos remédios – no Brasil,
os coquetéis são oferecidos de graça pelo governo – Nalva precisava de alguém
que cuidasse dela. “Eu mal saía da cama”. Seus filhos e irmãos não tinham
tempo, nem condições financeiras para contratar ajuda. Por sorte, ela conseguiu
vaga numa ONG de São Paulo voltada para idosas carentes com HIV.
Hoje, três anos depois, fica a maior parte do dia deitada, num quarto
que divide com outras senhoras soropositivas, esperando a vida passar. Pouco
antes de receber abrigo, Nalva soube por uma vizinha que uma amante de seu
ex-companheiro morreu vítima das complicações da aids. Para ela, essa não é uma
doença do amor.
Camuflado na pista
João vai a bailes dançantes no mínimo duas vezes por semana. "Quem
sabe dançar se dá bem com a mulherada", ele diz. "Só não danço tango.
Saio na vantagem para angariar mulher." Os bailes dançantes são locais
muito procurados por idosos em busca de companhia – seja para a dança, seja
para o sexo. O uso de preservativo não é regra entre os frequentadores. “Já nos
preservamos a vida toda. Agora é hora de aproveitar”, diz Nilton Pascoalini, de
69 anos. Todo final de semana, ele e a mulher, Marisa, de 67 anos, vão ao baile
dançar juntos. “É uma forma de manter aceso o romantismo da relação”, ela diz.
O casal costuma fazer sexo uma e duas vezes por semana. Sem camisinha.
“Não temos medo porque somos parceiros fixos, não há troca de casais",
afirma Marisa.
Passado o susto de ser diagnosticado soropositivo, João voltou a
frequentar bailes e a dormir com mulheres que conhece nas pistas de dança. Com
algumas, tem encontros de apenas uma noite. Agora, diz que usa preservativo
"do começo ao fim". Mas não revela a elas o motivo. "Digo que é
para evitar gravidez. Faço a minha parte. Se algo de ruim acontecer, a culpa
não será minha, mas do fabricante."
*Os nomes usados são fictícios para
preservar a identidade dos entrevistados
Sinta-se em casa e deixe seu comentário.
(Foto: Nathalia Tavolieri / ÉPOCA)
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