1.o Colocado "LONGEVIDADE HISTÓRIAS DE VIDA BRADESCO SEGUROS" 2012

A vida é uma viagem. Cada etapa é linda. (Entrevista)

24 de junho de 2013 comente
Em 2012, assisti no HC-USP, uma palestra com a Dra. Dorli Kamkhagi , ela, foi a responsável pela mudança do nome do Blog, antes, era chamado Melhoridade, após ouvi-la palestrando refleti que Melhoridade, remetia à um ideal, que nada se relaciona, com os aspectos trazidos à tona pela velhice. Fato que observo na maioria dos centros de convivência para idosos, aonde não é dado aos frequentadores, espaço para falarem de seus medos, angústias, já que lá o idoso é incessantemente associado a uma imagem jovial, produtiva, atlética e de autoconfiança, quando a realidade, é muito distante disso. 

Leiam a entrevista, vocês entenderão a minha admiração por ela.

Quais são as questões que mais afligem os idosos?

Dra. Dorli - A solidão, o medo das perdas e doenças, as transformações físicas, perdas econômicas e a dificuldade de fazer o ajuste entre o que acha de si mesmo e o corpo que efetivamente tem. Há uma imagem idealizada da velhice: quem não é maratonista fica frustrado. Tem gente que luta, mas, para a maioria, é uma fase difícil. A gente envelhece como vive: quem se interessava pela vida aos 50, continua assim aos 80. É só pensar em pessoas como a artista plástica Tomie Ohtake. O ideal é ponderar que não é preciso ser uma bailarina, mas é possível andar.

Como vê a idealização da terceira idade como "a melhor idade"?

Dra. Dorli - A velhice não é a melhor idade, é uma idade. Para algumas pessoas, pode até ser, mas para a maioria quase sempre é doloroso sair do mercado de trabalho. A mulher fica mais à vontade com o ambiente da casa, das amigas, de visitas e do comércio. Ela sempre circulou por esses espaços e tem maior facilidade para buscar cursos e aulas. Já para os homens, é mais difícil admitir que são aposentados. Algumas empresas já estão até fazendo um trabalho de preparo psicológico para a aposentadoria. Uma solução para eles seria refletir sobre se realmente querem se aposentar e, se for esse o caso, o que podem fazer para continuarem produtivos.

A AIDS está crescendo entre os idosos, assim como o consumo de medicamentos para disfunção erétil. Como está a sexualidade na maturidade?

Dra. Dorli - Medicamentos como o Viagra são bons para os homens, mas as mulheres nem sempre estão na mesma sintonia. A sexualidade é vivida como o canto do cisne, como alguém que diz: eu não posso envelhecer. Mas, geralmente, os homens que perdem a capacidade de gerar dinheiro perdem também a libido. E, muitas vezes, as mulheres jogam isso na cara deles. O casamento vira uma caixa preta: principalmente quando os filhos deixam o lar. Instala-se a chamada síndrome do ninho vazio, o casal deixa de desempenhar os papéis de pais, e hoje muitos se separam com mais de 70 anos.

De fato, as mulheres maduras estão mais joviais. Elas têm vivido plenamente sua sexualidade?

Dra. Dorli - Eu me lembro de uma paciente que ainda manipulava o marido com sexo. Ele estava indo para uma internação no hospital e ela só consentiu ficar com ele porque achava que seria a última vez. Dizia que ele não tinha sido bom com ela... Quem vê aqueles corpos acha que eles não transam, mas sim! Muitas vezes são as meninas com corpos perfeitos que não têm libido. Há muitas mulheres com mais de 70 anos que querem um novo namorado, romance, poder acender velas para fazer amor. Muitas mantêm um brilho forte no olhar e a sensualidade. Antigamente a menopausa decretava a aposentadoria da sexualidade feminina. A mídia está ajudando a desconstruir esse mito: hoje as mulheres maduras estão mais bem cuidadas. É normal ouvir uma mulher de 60 anos falar que sente desejo. Houve um ganho cultural de dez anos: a sensualidade é aceita. Mas o cuidado com a aparência é diferente da necessidade narcisística. É difícil encarar o envelhecimento numa sociedade que supervaloriza a estética. As mulheres fazem um monte de plásticas e acabam sem marcas, sem cara, como num limbo sem idade. Não precisamos tirar todas as marcas: elas têm o seu valor.

No Brasil, existe uma tendência a não se respeitar a opinião do idoso, alguns até os infantilizam...

Dra. Dorli - É perverso. Já tive uma paciente que me perguntou se deveria deixar sua mãe, de mais de 60 anos, namorar. O idoso tem de decidir sua própria vida. Ele merece ser respeitado, ou vai ter sua dignidade minada. Também não gosto da tendência de mostrar os velhos como bonzinhos: ninguém fica bom porque envelhece, as pessoas permanecem as mesmas. Seria bom saber que eles têm muito a oferecer com a sua experiência. Na Grécia, por exemplo, havia o conselho de sábios, composto pelos idosos. Na sociedade contemporânea, os velhos devem ter um lugar para passar sua sabedoria.

Que dicas daria para vivenciarem a maturidade da melhor forma possível?

Dra. Dorli - O melhor é aceitar o processo de envelhecimento. É importante saber que se vai morrer: o caminho da velhice leva a isso, que faz parte do processo de vida de todos nós. Mas quando se acredita na espiritualidade, e quando se sabe que cada um tem uma missão na vida, deixamos algo. Usar os aliados da medicina, como o check up, é essencial. Mas também é fundamental cuidar do lado emocional: resgatar o passado, dar novas interpretações, perdoar-se e perdoar os outros - porque as mágoas vão se acumulando. Nas memórias, há alguns trechos que precisam ser esquecidos e perdoados: não dá para carregar tudo. O ideal é elaborar: o que eu tive, o que eu tenho e o que gostaria de ter. E acalentar o desejo de se recriar. O principal é ter sonhos, metas e cultivar relacionamentos significativos.

Quais são os aspectos positivos da maturidade?

Dra. Dorli - Pode ser um momento maravilhoso para rever a vida, não apenas para procurar a cereja do bolo, com um narcisismo exacerbado. Um trabalho terapêutico pode ajudar. Quando nos revemos de verdade, passamos a nos torturar menos. Entramos em conciliação com o que foi possível, deixamos de ter um olhar tão duro que nos aprisiona em metas ideais.


Dra.Dorli Kamkhagi é Coordenadora do Grupo de Gênero do Amadurecimento do Instituto de Psiquiatria, no Hospital das Clínicas de São Paulo, aonde atende homens e mulheres com mais de 55 anos, que se reúnem para falar sobre questões da idade e trocar experiências. A partir da elaboração dos conflitos, muitos conseguem melhorar a auto estima e romper com o passado.

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